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conhecendo coincidências

Aquele momento de surpresa durou alguns muitos segundos até que eu sorri.
-Oscar! que surpresa! conhece Sophia então.
-Claro! -correspondeu meu sorriso- Queria saber como vocês acabaram se conhecendo.
Pensei "tão involuntariamente quanto te conheci".
-Nos encontramos agora no parque e com uma paixão comum. Sabia que essa bela mocinha quer ser fotógrafa?
-Ou essas duas belas mocinhas, não?!
Soltei uma gargalhada gigantesca. Mal sabia ele que eu era dona de um estúdio.
-De bela só uma... - ri.

Captado e fixado

Cheguei no estúdio, larguei minha bolsa e sentei a espera da minha cliente. Quando olhei pra tela do meu computador vi uma mensagem nova no meu e-mail. "Gostaria de fechar aquele pacote para Sophia, ainda tem o mesmo horário vago?" Mera coincidência de nomes talvez. Respondi confirmando. Apesar de achar um tanto curioso esse homem aparecer na minha vida dessa forma e me marcar por causa desse nome e de uma história que eu nem sei qual é, acabei nem pensando muito no assunto e achei que fosse o acaso mesmo. Minha cliente chegou, saímos para o lugar que ela desejava suas fotos e após o trabalho finalizado voltamos ao estúdio e fechamos a data para o ensaio. Pronto, agora realmente livre para pensar e procurar essas pessoas um tanto desconhecidas e curiosas. Mal esperava para que chegasse logo o "amanhã", aquela mesma hora e que a minha dúvida acabasse, ou talvez me perturbasse ainda mais por alguns outros motivos. Quando eu me preparava para fechar o estúdio pensei em levar a câmera, não sei porque, mas decidi obedecer minha intuição. Ao voltar pra casa passei no parque novamente, sentei e fiquei a observar tudo o que acontecia ao meu redor - como naquele dia que conheci Oscar-. Havia crianças empinando pipa, jovens de bicicleta, pessoas fazendo suas caminhadas do final de tarde e idosos sentados conversando. Havia também eu, sentada naquele banco que caberia no mínimo mais duas pessoas junto a mim, minha bolsa largada sobre minhas pernas e minha câmera aconchegada em cima. Comecei a fitar essas cenas como se fossem fotos captadas. Saí completamente do meu mundo, na realidade, fui para o meu mundo. Fiquei tão desligada que não percebi que uma criança sentou do meu lado e e ficou me olhando. "Oi tia, está tudo bem?" Mexi a cabeça acordando e olhei para aquela menina. Tinha cabelos claros e dourados, um olho bem azul e sorriso marcante. "Tudo bem sim -sorri- Porque você não vai brincar?" "To sem vontade, tia" Ficamos as duas olhando para o resto do parque sem ação, palavras ou assunto. "Tia, o que é isso? Tu é fotógrafa?-disse ela apontando para minha câmera-" "Sim." Eu me encontrava tão desligada que não percebi que ela queria mesmo era pegar o "novo brinquedo" e ver como funcionava. Ela passou a mão cuidadosamente sobre o obturador e fitou uma cena dizendo "Ficaria uma boa foto, né?!". Falei pra ela ir lá. Saiu correndo e parou posando para uma foto. Tirei essa foto dela e ela voltou correndo mais rápido que antes. "Deixa eu ver! -olhou a foto- Não sou muito fotogênica né, tia..." "Claro que é, tá linda, olha!" Olhou de novo pra câmera e fez sinal de não com a cabeça. "Tia... meu sonho é ser fotógrafa.. não gosto de ser modelo." Nisso chega uma voz masculina conhecida chamando por Sophia. A menina olha e depois dela, eu. Pensei em quem seria o dono dessa voz que me era tão familiar. Nem me passou na cabeça que o nome da menina era Sophia. Olhei para ele, ali estava Oscar com Sophia em seus braços olhando surpreso pra mim.

bilhete indecifrável

Olhei para a mesa vazia e para fora da janela. Aquele moço parecia perturbado. Parecia saudade. É como se ele tivesse recebido aquela mensagem da moça que ele ainda ama, e que um dia namorou, mas que hoje são apenas amigos. É como se ele gostasse de ver que ela lembrou dele, mas ao mesmo tempo ele tivesse muita saudade do seu passado ao lado dela. Delicadamente sentei-me naquela mesa que só existiam resquícios de guardanapos, pratos sujos e uma xícara. Entre os guardanapos tinha uma caneta. Fui pegar a caneta e me deparei com um bilhete. "Jamais te esquecerei, Sophia.". Quis saber quem era Sophia. Quem sabe fosse a responsável por aquela lágrima, e pela mensagem. Ergui a cabeça, e vi o mesmo moço na porta me olhando paralisado. Veio na minha direção. Desculpa -disse ele- Tu não tens nenhuma culpa do que aconteceu, não deveria ter saído sem dizer nada, mas pelo jeito já descobriu a razão de eu não parecer bem. Eu falei: Sophia? Ele respirou fundo, sentou-se ali comigo. "É, Sophia... Fiquei sem reação ao te ver por que me lembra muito ela. Não a aparecia, mas teu jeito atencioso de ter vindo me pedir o que acontecera". Foram essas as palavras que bastaram. Me contou que já me observava antes mesmo de receber a mensagem, e que meu modo de tratar as pessoas, de falar e de agir, o chamou atenção. Não quis pedir quem era Sophia, acho que ele não queria falar disso no momento, e como percebi que lhe fazia um pouco mal o assunto, deixei que ele mesmo viesse talvez a me contar quem fora ela. "Aceita um café?" pediu ele. Recusei. Ele ofereceu então uma caminhada no parque. Paguei então minha conta, e saímos da lanchonete. Gosto de passeios no parque, me fazem muito bem. Gosto de caminhar, pode até ser sozinha, e no momento pensei que nos fizesse bem a companhia um do outro. "Desculpa, mas como te chamas?" "Angelina..." "Me chamo Oscar, prazer." Rimos. Caminhando sem assunto, ele disse "que dia lindo está hoje, não?!" Concordei e falei que adoro dias ensolarados, me sinto mais disposta. E também confessei que amava passeios no parque. Conversamos um tempo, mas logo me der por conta que tinha compromisso e precisava ir. Olhei no relógio, tinha mais 15 minutos. "Parece preocupada, tens compromisso Angelina?" "Tenho... e preciso partir.. Mas foi um prazer conhecê-lo, até mais ver." "Poderíamos marcar um piquenique no final de semana o que acha? Gostaria de conversar mais contigo..." Ele me deixou completamente sem reação, não consegui perceber o que ele buscava em mim, se era a sua Sophia, ou uma nova amizade. "Claro." "Amanhã na mesma hora e lugar, um café pra conversarmos um pouco mais e combinar, pode ser?" "Ok!". Saí cabisbaixa, com um pouco de vergonha.. Olhei para trás, e vi ele ainda me mirando de longe. 

ultimo café

Permaneci ali. Sentada. Tomei o ultimo gole do café e olhei para o lado. Aquele moço parecia triste. Algo me incomodava naquele olhar. Não fazia ideia do que se passava naquela cabeça quando caiu aquela lágrima repentinamente. Ele me olhou e eu disfarcei. Não pretendia que ele percebesse que eu observava-o. O celular tocou. Uma mensagem. De quem seria? Ele sorriu meio tímido, e logo deixou que aquela face triste voltasse. Sutilmente olhei nos olhos dele, e esperei ele olhar nos meus. Perguntei se estava tudo bem e ele me perguntou o motivo de eu, uma total estranha, perguntar isso a ele. Falei que se os conhecidos não são capazes de perceber quando uma pessoa tão próxima está estranha ou parece triste, eu ao menos iria oferecer o meu braço amigo -desconhecido-. Não acho que um ser humano mereça estando mal ser deixado de lado. Não gostaria que fizessem isso comigo. Ele pede a conta, levanta, e sai, me deixando ali de pé ao lado da mesa, olhando para o assento vazio.